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Será que temos nos preparado para fazer o Ide?

Aprendendo com o apóstolo Paulo

A princípio este questionamento pode soar estranho a alguns, já que uma vez aprendemos que o que nos compete é anunciar o evangelho, é pregar as boas novas de Cristo e o resto fica por conta do Espírito Santo. Pois Jesus disse: “Quando ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Do pecado, porque não creem em mim” (João 16:8-9). Isto é uma verdade que eu acredito e defendo quando falamos de evangelismo. Que as nossas melhores argumentações, retórica e eloquência de nada adiantará se não houver um toque do Espírito Santo no coração do homem perdido. E. M. Bounds (piedoso metodista do século dezenove) escreveu com acerto que “Deus não unge métodos, Deus unge homens”. Nós estamos à procura de melhores métodos e Deus está à procura de melhores homens. Entretanto, ainda que seja verdade tais afirmações, será que não estamos nos escondendo atrás de toda essa teologia como desculpa para não nos prepararmos? Não nos qualificarmos?  Quero evocar a figura do apóstolo Paulo que creio ser um excelente exemplo que nos ajudará a compreender essa discussão.

Paulo apóstolo de Cristo Jesus, ex-fariseu convertido no caminho de damasco. Sua história está narrada no livro de Atos. Nas cartas que ele escreveu, nos dá informação a respeito de sua vida. Ele era fariseu, da tribo de benjamim, criado aos pés de um mestre conhecido na época e atestado por escritos rabínicos, um verdadeiro mestre em Israel chamado Gamaliel. Provavelmente de família abastarda, seu pai tinha cidadania romana, que por sua vez, foi herdada por Paulo (naquela época, possuir a cidadania romana era muito importante e assegurava aos que a possuíam direitos e privilégios especiais. Era tão importante quanto adquirir o Green Card Americano atualmente). Nasceu na cidade chamada Tarso, capital da Cilícia, província Romana situada na Ásia Menor (que era o centro da cultura grega). Não nasceu em Jerusalém, mas naquilo que era chamado a “dispersão”. Um homem extremamente versado e educado no AT, um rabino. Ou seja, um homem de três mundos: Judeu por nascimento (herdou toda a cultura judaica), e herdou também toda cultura grega; ele cita vários poetas e autores gregos em suas cartas (e tinha o conhecimento rabínico), por fim era cidadão romano, portanto cidadão do mundo; do império que já havia dominado muitos povos. Tinha profundo conhecimento da cultura helênica, e era impecável na língua grega. Falava o hebraico, conhecedor da língua popular dos judeus, o aramaico, e provavelmente falava latim, a língua oficial do Império Romano. Paulo era um dos Homens mais bem preparados de sua época.

O livro de Atos foi escrito por Lucas e sua ênfase característica na oração, nos sinais e maravilhas e no Espírito são demonstrados em Atos que, como um todo, é estruturado em torno da evangelização mundial (1.8): o livro contém seis ou oito declarações-resumo sobre a propagação do evangelho (veja 6.7; 9.31; 12.24; 16.5; 19.20; 28.31). Para Lucas, o principal objetivo é a comunicação transcultural entre os povos e a evangelização do mundo, e o poder necessário para realizar essa tarefa é simplesmente o Espírito Santo. A obra de Atos opera em diversas frentes: o evangelho cristão confronta os tribunais romanos, os filósofos gregos, os agricultores asiáticos e outras figuras nos próprios termos deles e nada é capaz de pará-lo. Mostrando que Deus pode e tem usado os crentes para realizar coisas incríveis. Em Atos cap. 17:16-34 é onde Paulo usa e demonstra todo seu arcabouço intelectual para anunciar a Cristo!

Após a separação de Silas e Timóteo em Bereia, Paulo é levado até Atenas, cuja a cidade era o berço dos grandes patronos da filosofia antiga que mudaram eras, tais como: Sócrates, Platão, Aristóteles, Zenão de Cítio, Péricles e outros. Atenas era um centro de aprendizado, a grande capital intelectual do mundo, com sofistas e filósofos viajando de toda a Grécia para ensinar retórica, astronomia, cosmologia, geometria e afins. O maior centro universitário do planeta da época, cidade dos grandes luminares do saber. Atenas era extremamente politeísta, sendo mencionada como “Atenas, a cidade saturada de deuses, com a mesma facilidade que se tira uma pedra da pedreira, outro deus é trazido para a cidade”. Epimênides chegou a dizer que é mais fácil encontrar deuses do que homens.

O espírito de Paulo logo se revolta diante de tamanha idolatria dominante na cidade (v17), e como de costume se dirigiu às sinagogas e nas praças, entre judeus e gentios todos os dias. Fato que chamou atenção de alguns filósofos Epicureus e Estoicos, que começaram a contender com ele, dizendo: “Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de deuses estranhos; pois pregava a Jesus e a ressurreição” (v18). Para compreender melhor o desafio que Paulo estava enfrentando, precisamos conhecer quem eram esses filósofos. Os Epicureus eram influentes somente nas classes sociais mais elevadas e instruídas. Sua visão de Deus era semelhante à do deísmo (a divindade não se envolvia no Universo e era irrelevante); se existissem deuses, estes eram apenas aqueles conhecidos por meio dos sentidos, como as estrelas ou os planetas. O objetivo da vida era o prazer, definido pelos epicureus como a ausência de dor física e de perturbações emocionais. Por serem ateus e extremamente materialistas eles rejeitavam templos e sacrifícios. O homem vive como se não houvesse um porvir: importa o aqui, o agora, o imediato. Busca o prazer a todo custo. É como disse Isaías “eis aqui gozo e alegria, matam-se bois e degolam-se ovelhas, come-se carne, e bebe-se vinho, e diz-se: Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.” (Isaías 22:13)

                Os Estoicos eram mais populares, opunham-se ao prazer e criticavam os epicureus (embora não tanto quanto no passado). Segundo eles, as pessoas são parte de uma mesma razão universal. Criam que os processos naturais eram regidos pelas leis da natureza e por isso o homem deveria aceitar deu destino. Se mostravam insensíveis e indiferentes a tudo, pois tinham essa força de determinação cósmica de todos os homens, o destino traçado – Ananque (Ανάγκη) na mitologia grega, era a deusa da inevitabilidade, mãe das Moiras e personificação do destino, necessidade inalterável. Era casada com Moros. Por isso era comum os estoicos serem acusados de fatalistas. Embora os estoicos professassem a fé nos deuses, muitos filósofos eram considerados ímpios, pois questionavam as antigas tradições, embora as permitissem para as massas. Acreditavam em um deus que estava em toda parte, presente em tudo e em todas as coisas e, portanto, não se restringia a templos, ou seja, um deus que está muito longe de ser o Deus pessoal das escrituras. Os judeus helenistas aplicavam esse conceito de onipresença de Deus, mas não no sentido panteísta dos estoicos.  

                Este era o atual cenário que Paulo estava submetido. Pensemos, o que poderia ter se passado na mente de Paulo? Será que nós, teríamos a intrepidez de conclamar as verdades bíblicas independente do desafio? Ou nos esconderíamos, passaríamos a vez para alguém mais experiente? A Bíblia nos comissiona a fazer o Ide, anunciar as boas novas a toda e qualquer criatura, inclusive aquelas que são reputadas como os mais aptos intelectualmente, professores de universidades, pensadores, filósofos etc. Quantas vezes nós não nos amedrontamos por achar que seríamos humilhados publicamente por alguém, que o outro teria um argumento na ponta a língua para rebater toda e quaisquer considerações nossas a respeito de Cristo. O texto nos diz que levaram Paulo ao Areópago, lugar onde as ideias eram disputadas e debatidas. Após passar e observar os atenienses (v23) viu uma brecha, uma oportunidade, havia um altar ao “Deus desconhecido” – ΑΓΝΩΣΤ ΩΘΕΩ.

Porque, passando e observando os objetos de vosso culto, encontrei também um altar no qual está inscrito: Ao Deus Desconhecido. Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio. (Atos 17:23)

                Paulo sabia qual era o seu ministério e quem o havia comissionado. Para lhes abrir os olhos e os converterem das trevas para a luz, e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em Cristo. (Atos 26:18)
                Na cidade dos “amantes da sabedoria”, Paulo colocou o foco sobre eles a ignorância e admitiu saber a identidade desse Deus. Os atenienses adoravam um deus sem conhece-lo. Paulo se aproveitou disso para fazer evangelismo. Ninguém pode se eximir alegando não saber da existência de Deus ou de sua influência (Rm 1:19-22). E ali, estava a civilização considerada a mais sábia de todos os tempos, os gregos, cujo seu impacto é até hoje estudado nas universidades, declarando em um monumento que não conheciam a Deus. Assim é o homem que está estribado em sua própria inteligência e sabedoria, ele é ignorante, é incapaz de conhecer a Deus e discernir seus caminhos, diz o tolo em seu coração “Deus não existe” (Sl 14:1).

                Só quando acontece nele o que aconteceu com Paulo que ele poderá dizer:

“certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos. Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação. Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” (1Co 1:18-31)

Será que conhecemos a Deus? Estamos remindo o tempo a Glória de Deus? Os Atenienses não cuidavam de outra coisa senão dizer ou ouvir a ultimas novidades (v21). Estamos procurando por uma vontade ávida em conhecer a Deus? D. A Carson diz a respeito do discurso de Paulo (v22-31) “É um brilhante exemplo de estratégia missionária”. Paulo, conhecia o contexto grego, o resumo do sermão nesta passagem, por sua brevidade, é retoricamente sofisticado: são vários os recursos retóricos notáveis (p. ex., a aliteração) em grego, e há exemplos primorosos do uso da língua (como o uso dos verbos no aspecto optativo). Ele chega a citar dois autores gregos, Epimênides (600 A.C, já mencionado no início deste texto ) e Arato (315 A.C – 240 A.C ). As palavras “nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28) têm sido há muito tempo atribuídas ao poeta grego Epimênides (palavras do mesmo poema citado em Tt 1.12), o qual, segundo uma tradição, foi quem recomendou edificar altares aos deuses desconhecidos (cf. 17.23). A outra citação, “dele também somos geração”, é provavelmente do poeta grego Arato, do século 3 a.C., o qual era natural da mesma região de Paulo, a Cilicia. (Um verso parecido ocorre em um texto do autor estoico Cleantes). Os antigos tinham em alta conta a capacidade retórica de se comunicar de forma relevante com diferentes públicos; Paulo prega nas cartas (13.16-41), para agricultores (14.15-17) e a indivíduos com instrução filosófica (17.22-31).

Que possamos ser como Paulo, estar sempre preparados para responder a qualquer pessoa que nos questionar quanto a esperança que há em nós (1Pe 3:15). Tendo a certeza que Deus não nos desamparará. Que através da nossa pregação, que é o instrumento pelo qual Deus chama seus eleitos, pessoas dos mais diversos contextos possam ser alcançadas, pois Ele sempre nos conduz em triunfo, porque somos o aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos, cheiro de vida para a vida (2Co 2:16).  Que o Deus de Paulo, o nosso Deus possa não mais ser um “Deus Desconhecido” para os ímpios, mas o Deus que criou o mundo e tudo que nele existe – céus e terras – e que dá a vida e a respiração todos os seres vivos, que de um só fez toda a raça humana para habitar sobre a face da terra, para o buscar, tateando, podendo o encontrar pois Ele não está longe de cada um de nós! (v24-27). Que elas entendam que Nele vivemos, nos movemos e existimos (v28), pois somos geração eleita dele, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, para que anunciemos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz (2Pe 2:9).

O texto nos relata que após o discurso de Paulo, muitos escarneceram e zombaram dizendo: “a respeito disso te ouviremos noutra ocasião”. Contudo Lucas faz questão de nos mostrar que alguns homens creram no evangelho que Paulo pregou, dentre eles Lucas destaca, Dionísio, o areopagita e uma mulher chamada Dâmaris e com eles outros mais. Que essa palavra possa nos encorajar e nos motivar a estar preparados para quando a oportunidade surgir. Haverá os remanescentes que não dobraram o joelho a outros deuses e com estes Deus tem um propósito. Preguemos e anunciemos, não importando o contexto, a hora ou o tempo, que possamos ser luz na vida daqueles que ainda desconhecem o nosso Deus, que não levou em conta os tempos de ignorância, agora porém, notifica a todos em toda parte que se arrependam. Que a nossa vontade e mente seja levada cativa a vontade de Deus ao ponto de dizer como Isaías disse ao ouvir a voz do Senhor: “ouvi a voz do Senhor, conclamando: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” E eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me!” (Is 6:8). Que Deus levante Paulos no meio de sua igreja. Amém

Até o proximo post.

As. Marcos Daniel.

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Um comentário em “Será que temos nos preparado para fazer o Ide?”

  1. Texto desafiador, instigante! Que Deus os capacite para pregar através da textos. Parabéns à equipe.

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